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DÉCIMA PRIMEIRA ETAPA – GUBBIO a VALFABBRICA, 30km

 

DÉCIMA PRIMEIRA ETAPA – GUBBIO a VALFABBRICA, 30km

 Ainda que estejamos no inicio do mês de maio, em plena primavera, os dias iniciam com frio e a tarde o calor é forte, exigindo consumo de água superior ao início da jornada, razão pela qual tenho o cuidado de me abastecer de pelo menos duas garrafas para o percurso tendo em vista que não há muita disponibilidade desse bem precioso pelo caminho.

 Ocorre que na região não existem muitas opções para água, razão pela qual no mínimo um litro e meio de água garante o percurso de cerca de 30km em tempo estimado de caminhada em torno de 9 horas. O trajeto não é elevado sendo mais ou menos plano, mas entre Gualdo, cerca de 8km de Gubbio, há um forte aclive com uma descida equivalente até imediações de Madonna  delle Grazzie.

 Saindo de Gubbio toma-se os sinais na direção sul passando pela Igreja della Vittorina encontrando-se bem sinalizado paralelamente o caminho Franciscano que em duas etapas nos leva ao destino traçado, Assis. O percurso é feito em trilhas naturais cortadas por algumas partes de asfalto.  Tendo em vista que este percurso é muito longo (cerca de 30km) é possível dividir as etapas fazendo-o em dois ou três dias o final do caminho até Assis. Assim, pode-se caminhar 12km até o Rifugio de Badia di Vallingenno que deverá estar aberto a partir de 2012 e fazer a etapa restante sem muito excesso. Favor informar-se com Don Alfeo ou Giordano sobre a abertura desse Refúgio, mas há hotéis ou pousadas pelo percurso.

 O trajeto envolve paisagens naturais comuns da região, além de desfiladeiros frescos em meio às sombras das árvores. Existem poucas possibilidades de água potável no caminho.

 Em Valfabbrica, província de Perúgia, o refúgio Instituzionale está sendo preparado para receber os peregrinos sendo a opção para o momento o Ostello Franscescano que ao preço de 23 euros se pode dormir, jantar e tomar o café da manhã. Aliás, os preços na Itália são convidativos e dentro das possibilidades de qualquer caminhante. Por 10 euros se faz uma ótima refeição.

 As origens do castelo de Valfabbrica estão intimamente associados com os eventos do Mosteiro Beneditino de Santa Maria um dos “antigos mosteiros e o mais importante da Umbria. Não se sabe com absoluta certeza a data de fundação do mosteiro. Mas, segundo a tradição, ele já existia no ano 820, quando era pertencia ao imperador Luís, o Piedoso, com a qual concedeu protecção à Abadia de Valfabbrica. A abadia foi fundada por monges em um local de grande importância estratégica, perto do vau da estrada ligando Assis na qual por vezes viajou  San Francisco.

 

DÉCIMA ETAPA – PIETRALUNGA a GUBBIO – 28KM

preparativo festa dei Ceri

Gubbio

DÉCIMA ETAPA – PIETRALUNGA a GUBBIO

Acordamos por volta das 06h30minutos para a jornada até Gubbio. Já no clarear do dia se espalhava pelo mundo uma noticia da qual 99,99% da população mundial recebia com muita alegria e com festa, a morte de Osama Bin Laden. Confesso que fiquei muito feliz, alegre pelas vítimas do atentado de 11 de setembro e tantos outros patrocinados por aquele demente que ceifou milhares de vidas de inocentes. Para a ocasião e comemoração lembrei-me do Cântico ao irmão Sol de São Francisco de Assis:

Altíssimo, onipotente e bom Senhor, a ti subam os louvores, a glória e a honra e todas as bênçãos!
A ti somente, Altíssimo, eles são devidos, e nenhum homem é sequer digno de dizer teu nome.
Louvado sejas, Senhor meu, junto com todas tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, que é o dia e nos dá a luz em teu nome.
Pois ele é belo e radioso com grande esplendor, e é teu símbolo, Altíssimo.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã lua e as estrelas, as quais formaste claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão vento, e pelo ar, pelas nuvens e o céu claro, e por todos os tempos, pelos quais dás às tuas criaturas sustento.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão fogo, por cujo meio a noite alumias, ele que é formoso e alegre e robusto e forte.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã, nossa mãe, a terra, que nos sustenta e nos governa, e dá tantos frutos e coloridas flores, e também as ervas.
Louvado sejas, Senhor meu, por aqueles que perdoam por amor a ti e suportam enfermidades e atribulações.
Benditos aqueles que sustentam a paz, pois serão por ti, Altíssimo, coroados.
Louvado sejas, Senhor meu, por nossa irmã, a morte corpórea, da qual nenhum homem vivo pode fugir.
Pobres dos que morrem em pecado mortal! e benditos quem a morte encontrar conformes à tua santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai todos vós e bendizei o meu Senhor, e dai-lhe graças, e o servi com grande humildade.

 O percurso segue pelo centro da vila através da via Roma por dois quilometros (altitude 600m). Nas proximidades de uma casa branca se entra à direita seguindo diretamente a San Benedetto, 600 metros de altitude. De San Benedetto até Loreto (local em que será aberto um rifugio previsto para o ano de 2012) são 10km de distância passando por Madonna di Montecchi com poucos aclives e declives pois se mantém a mesma altitude inicial dopercurso do dia. De Loreto até Gubbio são 9,5 km em cujo percurso se enfrenta uma longa mas suportável descida até Ponticello caminhando-se cerca de 03 km pela pereferia de Gubbio, passando pelas ruinas do imponente Teatro Romano construido no final do primeiro século antes de cristo em pleno período republicano. Trata-se de magestoso patrimônio da Umbria.

Gubbio se trata de uma cidade muito bonita, com belos prédios antigos e medievais. Foi palco de um seriado muito conhecido no Brasil apresentado na TV a cabo intitulado “Don Matteo”. O comércio é forte, possui mercados, padarias e vários restaurantes.

Chama atenção em Gubbio que na maioria das casas, portas e janelas existem estampas (panos) ou bandeiras de várias cores (vermelho, branco, azul) e escudos indicando uma grande festa secular que ocorre sempre no dia 15 de maio e envolve toda a população. Trata-se da festa La Corsa dei Seri (seri=estátuas de madeira com 05 cm) em homenagem a Santo Ubaldo (bispo século XII) que originalmente nasceu através de uma procissão organizada pelo povo, portando velas, quando o bispo se encontrava muito doente.

O refúgio localiza-se na paróquia Madonna del Prato, depois do Hotel Beniamino Ubaldi. Preço $5 euros para dormir. O Ristorante Francescano possui menu do dia a $13 euros. Entretanto, existem inúmeros restaurantes com preços interessantes e pratos variados.

 

 

NONA ETAPA – CITA DI CASTELO a PIETRALUNGA, 32KM

Albergue Cittá di Castello

inauguração gelateria

NONA ETAPA – CITA DI CASTELO  a PIETRALUNGA, 32KM

Acordamos em pleno domingo por volta das 07:30h e as 08:30h saímos do albergue para o início de uma longa jornada de 32 km sob sol muito forte. Estamos no dia primeiro de maio e ao passarmos pelas ruas do centro histórico notamos que existem preparativos em curso para a comemoração da data alusiva ao dia do trabalhador.

O grande problema que estamos enfrentando nessa caminhada é o peso da mochila. Eu por exemplo estou levando duas, sendo uma pequena que é colocada na parte da frente e de certa forma, ainda que incômoda, auxilia no equilíbrio. O Eduardo leva na sua bagagem um pesado saco de dormir e a bíblia que pesa mais de um kg. Para um percurso tão longo o peso das bagagens será muito sentido como acabou fazendo uma baita diferença pois cumprimos nossa jornada em cerca de 10 horas de caminhada mas totalmente esgotados.

Além da gratificante companhia perdemos os bandeirantes que certamente batalhariam nas próximas aldeias o transporte das mochilas já que para duas pessoas seria inviável em termos de preços. Lembrei da foto que a Ana Elisa pediu que fizesse, no dia anterior, antes de entrarem na estupenda Mercedes Benz que as levaria até a metade do caminho.

 

Mercedez da Ana Elisa

As trilhas do caminho são um pouco diferente nesta etapa pois caminhamos a maior parte do tempo em estradas secundárias de chão batido sendo que as vezes tivemos a oportunidade de caminhar em matas ou por trilhas nos campos. A beleza desta parte da Itália é vista nos morros, nas planícies. A região não é tanto montanhosa mas a partir de Sacro Cuore, 04 km depois, inicia-se um aclive que inclina-se  pouco mais de 600 metros de altitude. Antes de Cai Giusti, após uma longa descida temos que fazer uma subida de mais 200 metros de altitude. Este tal sobe e desce sob sol muito forte aos poucos vai exterminando nossas forças, mas tudo é parte dessa grandiosa odisséia de seguir os passos de São Francisco.

O maior problema que enfrentamos, além do peso das mochilas, na verdade se tornou pequeno pois ficamos sem água no último terço do caminho além de termos nos perdido várias vezes pois a sinalização é dúbia, confusa e ineficiente nesta etapa, o que redundou certamente uns 38km na etapa do dia. Em vários momentos a única sinalização existente é a de um outro caminho franciscano (a propósito muito bem sinalizado). A falta de sinalização ou mesmo a inadequada sinalização do Caminho de Assis nesta etapa exige que a organização do caminho tome providencias para melhor sinalizá-lo sob pena do caminho cair em desgraça, especialmente pelo fato de que não há água potável e nem vilas de abastecimento em algumas etapas. Pelo menos aquele que tiver a oportunidade de fazer a leitura deste blog saberá a partir de agora que na falta de sinalização deverá seguir as indicações do caminho franciscano que possui as indicações na cor amarela enquanto o caminho de Assis tem sido sinalizado pela seta vermelha as vezes verde.

Consumi duas garrafas de água e uma coca cola. Neste percurso não existe água no caminho nem vilas onde se poderia adquirir alguma coisa. A sede era tanta que até uma gota de coca serviu para atenuar os lábios secos. Apenas na entrada de Pietralunga, ainda na zona rural, é que conseguimos água para beber e encher as garrafas. A água apareceu quando estávamos no limite de nossas forças e neste sentido eu e Eduardo questionamos que: a questão da água deveria ser esclarecida no inicio da peregrinação ou fosse informada as etapas em que há dificuldade de água.

No momento de intensa dificuldade e sofrimento, pelas adversidades apresentadas, nos perguntamos qual a razão para essas escolhas, a peregrinação, por exemplo, longe do conforto de nossas casas e famílias. Evidentemente que estamos num caminho novo que existe há pouco mais de dois anos e que não estamos no caminho de Santiago que possui mais de 1000 anos, forte estrutura e inclusive grande apelo espiritual.

Na intensidade de minha vida, especialmente profissional, chega-se um momento que estou doente, sem paz. A caminhada me liberta, retira todo o mal condicionado no organismo povoado por dias de intenso trabalho e estresse. Unem-se a caminhada à limpeza da alma e a necessidade de conhecer povos, culturas. Volto para casa leve, limpo, e exorcizado dos males da civilização. Por essa razão é que necessito, assim como água e alimento, caminhar, caminhar muito…Lhes digo com toda a profundidade que as trilhas, os povos, as culturas, a história, as cidades medievais, as metrópoles, os monumentos, são o tesouro escondido em minha mente que meus olhos, com a graça de Deus nosso pai, pode a mim proporcionar. Assim, eu e o meu amigo Eduardo temos isso em comum, ou seja, a necessidade de dar asas a alma para a pé nos salvarmos das doenças do mundo, sempre com Deus no coração.

Chegamos em Pietralunga e a cidade estava em festa, primeiro de maio. Bandas e bandas de rock e música popular se dividiam no entretenimento da comuna em plena praça, em frente à velha igreja. Bares lotados. Os italianos alegres e felizes, eu e Eduardo também.

Fomos à igreja, o padre não estava, pois estava hospitalizado em outra cidade. Não encontramos ninguém a espera de peregrinos, sequer conseguimos telefonar pois o padre estava doente. E agora? Há hotéis na vila e restaurantes.

No primeiro bar ao lado da igreja perguntamos sobre o albergue e um senhor muito atencioso nos atendeu, esposo da senhora que trabalha para o padre, levando-nos até o albergue que cobra apenas donativo. Veja-se que o peregrino nunca está só, sempre há alguém disposto a nos ajudar. Voltamos à praça e ficamos até o final da festa. Mais tarde num dos bares bebemos algumas cerveja (birra).

Boa noite, viva a Itália.

 

1º de maio - Pietralunga

casa de Garibaldi durante libertação Itália

 

 

OITAVA ETAPA – SANSEPOLCRO a CITTÁ DI CASTELLO

OITAVA ETAPA – SANSEPOLCRO a CITTÁ DI CASTELLO – 30km

 Arrumadas as mochilas, tomado o excelente café, e despachada à bagagem até o albergue em Cittá di Castello um novo e longo dia de caminhada se inicia com a despedida dos amigos de São Paulo. É que eles pretendem fazer esta etapa em dois dias ficando em um albergue próximos a metade do percurso. Tendo em vista que eu e Eduardo programamos a caminhada para 12 dias e que gostaríamos de ficar em Assis pelo menos dois dias nossa meta é cumprir os quilômetros da etapa.

 Despedimo-nos de Ana Elisa, Vera Lúcia, Jomara, Ademir, Maria Denise e Ernesto. Obrigado amigos pela companhia. A vossa presença foi elementar para matarmos a saudade da nossa gente brasileira em pagos distantes.

 A ausência da mochila nos facilitará o cumprimento do percurso e mais uma vez faremos uma caminhada de recuperação das forças. O mesmo veículo que levará as mochilas dos peregrinos paulistas fará um percurso de mais 10km aproximadamente deixando a minha e do Eduardo no albergue em Cittá di Castello.

 O trecho tem um percurso de 18km por asfalto. O asfalto é a novidade na medida em que neste caminho os trajetos são essencialmente por trilhas que tornam a caminhada mais agradável. Peregrino não gosta de asfalto. A exceção de um aclive bem acentuado entre Sansepolcro e Cancello a maior parte da etapa se desenvolve em terreno plano. Depois de Lama, por volta do km 22, o percurso é complicado havendo sinalização deficiente. Por exemplo: há que transpor um reservatório em que uma pessoa com mochila passa com dificuldades. Esta parte do trajeto está sem manutenção e é muito confusa já que às vezes caminhamos em meio a lavouras. É possível que um novo trajeto tenha sido disponibilizado aos peregrinos mas a sinalização é deficiente. Caminha-se longo percurso numa estrada sem acostamento com muitos riscos face o trafego intenso de veículos.

 O percurso não possui alimentação e água potável disponível com o que sugiro que os interessados em fazer o caminho levem água e comida suficiente para o cumprimento da jornada.

 A sinalização como já referi é deficiente e a chegada no centro histórico de Cittá di Castello é mais confusa ainda, especialmente no ponto em que se situa a sede da cruz vermelha (crusse rose). A localização do albergue atual somente é possível mediante pedido de informações nas ruas. Na verdade caminhamos mais de 30 quilômetros no dia. A compensação desses entraves ocorre pela beleza da região e das matas.

 Cittá di Castello é uma vila antiga no centro histórico, com muitos prédios e igrejas centenárias, mas rodeada de bairros e edificações modernas. Ficamos no albergue Residenza Antica Canonica, via S. Florido, 23. Preço: 30 euros somente o pernoite. Fomos bem recebidos pela graciosa Elisa que enquanto nos atendia era allora (então) pra cá e allora pra lá. Os quartos são grandes e a estrutura é boa. Não há toalhas e nem sabonetes.

A cidade possui um vasto comércio e inúmeros restaurantes. Destaca-se as gelaterias. O meu sorvete preferido era o de café mas as vezes mandava um de frutas do campo. No passeio noturno encontramos uma enoteca grandiosa em que o “point” dos italianos é reunirem-se no local, entre amigos, escolhendo os vinhos de preferência (há milhares de garrafas) com a finalidade de saborear o néctar dos deuses. Aliás, as enotecas na Itália são facilmente encontradas com freqüência nas cidades de médio a grande porte. Ao procurarmos um restaurante para jantar fomos surpreendidos pela inauguração de uma nova gelateria que convidava a todos que passavam em frente para saborear canapés e comida quente, além de água e vinho, tudo a vontade. Havia um velinho junto a dezenas de pessoas, que se aglomeravam dentro e fora do estabelecimento, e este nos olhava [reconhecendo pelas vestes peregrinos famintos] dizendo “mangiare e bere a sufficienza, è tutto gratis”. A toda obviedade comemos e bebemos muito. Ao final, um dos melhores sorvetes degustados em toda a minha vida.  

 Aproveitamos o fuso horário para ligar para nossos familiares e matar a saudade, inclusive dos filhos de pelo. Empanturrados de comida e vinho o sono veio fácil. Vejam os meus bixinhos ai embaixo numa foto não programada. Que beleza o Pepe e a Lulu. Em face da ausência a saudade era deles e minha ao mesmo tempo.

 

                              

 

SÉTIMA ETAPA – CAPRESE MICHELANGELO a SANSEPOLCRO

SÉTIMA ETAPA – CAPRESE MICHELANGELO a SANSEPOLCRO, 25km

 30.04.2011. Saímos do refúgio por volta das 07 horas dando início a jornada do dia. Antes, porém fomos a uma cafeteria onde tratamos da necessária alimentação como garantia do cumprimento de nossa jornada. No bar juntamos nossas mochilas com as de Ana Elisa, Vera Lúcia, Jomara, Ademir, Maria Denise e Ernesto tendo em vista a contratação de transporte das mesmas até o albergue de San sepolcro ao custo de 5 euros por pessoa.

 O percurso de 25km tem seu início numa altitude de 800 metros com variações entre declives e aclives até 300 metros em Sansepolcro. No trajeto não há alimentação disponível nem água potável.

 A caminhada é calma como sempre tranqüila com pouca altitude e longas trilhas planas, nesta etapa. A ausência da mochila importa em conforto incomum permitindo uma caminhada sem o estresse do peso e melhor aproveitamento do dia. O próprio corpo sofre menos e todo esse relaxamento tem como efeito uma caminhada mais prazerosa. A novidade de estar sem mochila também tem seu impacto negativo na medida em que nos propusemos a caminhar com a bagagem, o que já fiz por exemplo em outros percursos a Santiago de Compostela [de Lisboa a Santiago e de Le Puy a Santiago] em mais de 2.500 km a pé com a mochila nas costas. A bagagem nunca foi problema e por certo não seria no Caminho de Assis. Devido ao cansaço das íngremes etapas anteriores o percurso sem a mochila serviu como um analgésico para o alivio das dores nas costas. Assim, a idéia dos irmãos Paulistas foi bem acolhida e apenas podemos dizer muito obrigado aos nossos irmãos de São Paulo.

 Sansepolcro é uma bela e pequena comunidade. Possui um forte comércio, Igrejas dos séculos XI e XIII e números prédios antigos. Destaca-se em um dos prédios uma sólida homenagem a Giuseppe Garibaldi o libertador e unificador da Itália, herói dos dois mundos e que nós gaúchos conhecemos muito bem, pois o bravo Garibaldi lutou ao lado dos “farrapos” na revolução farroupilha [1835 a 1845] em que o Rio Grande do Sul tentou a liberdade e a independência do Brasil. Ajudou a fundar a nossa República Riograndense ou República de Piratini. O herói, nascido em Nice, na França, em 04 de julho de 1807, filho de um pescador, faleceu em Caprera em 02 de junho de 1882 no gozo de aposentadoria concedida pelo rei Victor Emanuel II, foi general e revolucionário teve o intento de unificar a Itália separada desde o fim do Império Romano.

 

 Pintura de Giuseppe Garibaldi. A propósito outro herói do Rio Grande do Sul Sepé Tiaraju, razão do meu nome, foi batizado por padres europeus nas missões como Giuseppe. Sepé viveu 200 antes de Garibaldi sendo o grande responsável pela garra dos gaúchos e inpirador de nossa cultura pautada na terra, trabalho, nacionalismo e peleia (guerra) sempre que for necessário.                   

O albergue onde pernoitamos [Foresteria Santa Maria dei Servi - Via Dotti, 2 Centro storico] ao lado de uma igreja é muito confortável preço de 13 euros incluído o café da manhã, servido as 07h, ou 24 euros com o acréscimo do jantar, além de internet livre que nos propiciou acesso ao correio eletrônico e comunicações com as famílias. Jantamos em confraternização [oito brasileiros] no restaurante próximo ao albergue. Variados pratos, saladas e pizzas, muito vinho e muita alegria.

 Finalmente, com o estomago preenchido e ao soar de arpas e citaras transmitidas pelo vinho, alegres e felizes, voltamos ao albergue para uma boa noite.

Boa noite Jhon Boy.

SEXTA ETAPA – BIFORCO a CAPRESE

peregrinos do Brasil Santuário La Verna

                            SEXTA ETAPA – BIFORCO a CAPRESE, 30 km

 Tendo em vista que a jornada do dia será de 30km, ou pelo menos 10 horas de caminhada, após o café, saímos as 06h30minutos, ainda noite. Ao colocarmos o pé na estrada veio a chuva, nossa inseparável companheira…estamos acostumados. O percurso inicia leve por cerca de 02km numa altitude de 600 metros e após enfrentamos a montanha por uma hora de aclive com uma boa descida em meio a floresta contornando o parque florestal mediante novas subidas até atingir o topo de 1.300 metros de altitude em Eremo della Casella num misto de floresta com enormes pedras pelo caminho até o Santuário de São Francisco de Assis em Chiusi Allá Verna onde ele recebeu os estigmas. A caminhada é silenciosa e toda ela tendo como palco a frondosa floresta. Os momentos de introspecção, reflexão e meditação são intensos. Em alguns momentos ficamos conversando sobre assuntos da vida objetivando evitar a monotonia, quebrada pela beleza da floresta e das muitas árvores, nascidas e desenvolvidas junto a enormes pedras, importam em beleza natural impressionante. Passamos por inúmeros locais que servem de abrigo a veados, ursos, lebres e outros animais no rigoroso inverno, eis que facilmente encontrados na floresta. O ar respirado renova e revigora os pulmões da poluição urbana e se torna o principal combustível no cumprimento de nossa meta neste dia extenso.

 A medida que nos aproximamos do Santuário de La Verna avistamos um paredão de rochas (um monte na montanha) que indica haver uma fortaleza ou mosteiro muito antigo e que logo contornado nos indica tratar-se do santuário onde São Francisco de Assis viveu por algum tempo. O histórico santuário, simples e majestoso, está de luto porquanto algumas freiras que o dirigem faleceram num acidente de trânsito. A visita ao santuário importa em conhecer a capela onde o santo de Assis recebeu os estigmas de Cristo, a igreja erigida  em homenagem e os afrescos pintados na pedra demonstrando as fases terrenas de Francisco em sua caminhada, projeção e devota santidade. O santuário ainda conserva a gruta onde São Francisco se recolhia.                        

afresco santuário

  Ao ingressarmos no Santuário enfim encontramos abaixo de um chuvisqueiro os seis brasileiros que haviam passado a noite no refúgio existente no local e que também abriga um museu devotado ao santo de Assis. Abraçamos os paulistas de Ribeirão Preto e de Guarulhos, Ana Elisa e Vera Lúcia, Jomara, Ademir, Maria Denise e Ernesto. A felicidade de encontrar nossos irmãos brasileiros foi um aditivo para a caminhada que se desenvolveu muito bem, especialmente quando os encontramos horas depois pelo caminho até Caprese Michelangelo onde ficaríamos reunidos, todos no mesmo refúgio, oito brasileiros.

 Uma indagação percorre minha mente. Estamos num pais distante, nas montanhas dos Apeninos, embrenhados numa caminhada de raros peregrinos pelo percurso e lá se conhecem outros seis brasileiros. Será que as coisas ocorrem por acaso? Na verdade eu e Eduardo estávamos sendo derrotados aos poucos pela dificuldade natural do caminho que exige muito esforço. O peso das mochilas, subida após subida, causava estresse físico. Por vezes dada à verticalidade da montanha tínhamos que andar agachados para distribuir o peso da mochila com o corpo. Nisto entram os irmãos paulistas que haviam conseguido contratar transporte das mochilas inaugurando este serviço [que está disponível no Caminho de Santiago] na Itália e que no dia seguinte, a fim de recobrarmos as forças, entramos no rateio das despesas do transporte.

 Após La Verna há uma forte e aguda subida, ou melhor, nenhuma novidade em se tratando dos apeninos. Em Chiuse de Laverna há um bom comércio de alimentos assim como em nosso destino em Caprese, pequena cidade onde nasceu o grande Michelangelo. Na vila há, na parte antiga, a casa de Michelangelo e nela o museu com algumas obras dele, pois as principais estão em Florença e nos museus espalhados pelo mundo.

 No refúgio Senzano, de Caprese Michelangelo, ao chegarmos, não havia ninguém a nossa espera. A porta estava aberta, entramos e ocupamos os quartos disponíveis. Por volta das 20h uma senhora apareceu para a cobrança e carimbo da assisiana (credencial) questionando como havíamos entrado se a porta deveria estar chaveada e o ingresso das pessoas somente era possível a partir da hora que ela chegasse [ela não tinha hora?]. Ora, a porta estava encostada e imaginávamos que poderíamos entrar nos quartos como é comum nos albergues ou refúgios. O cúmulo do absurdo é de que, segundo a tal senhora, os quartos deveriam ser desocupados e casais teriam que dividir quartos com solteiros, etc e tal. Para eu e Eduardo sobrou um quarto com cama de casal e a tal senhora achava natural dois homens dormir numa mesma cama. Imagine um colorado e outro gremista partilhar da mesma cama. Nunca! No meu leito só a minha mulher gremista detém a honra da minha companhia. Protestamos, ainda que fossemos dois colorados ou gremistas, pois no Sul do Brasil homem não dorme com homem.

 Existem pessoas nestes caminhos que estão no lugar errado. Esta senhora mal educada por certo estava no lugar e na atividade errada. Ela não sabe que o peregrino caminha 9 a 10 horas por dia e quando chega no albergue ou refúgio necessita tomar banho, lavar a roupa e descansar os pés e o corpo. Uma pessoa que chegou às 16 horas no refúgio, por exemplo, teria que aguardar em pé por cerca de 04 horas a chegada da beldade, tenha paciência. Irritada disse ainda que devíamos explicações a Presidente da Comunidade a qual cerca de meia hora após esteve no local e pediu desculpas pela injustificada ignorância da colega que passa por problemas familiares. Ocorre que não temos culpa pelos problemas das pessoas. Indagamos a Presidenta do quarto com cama de casal para dois homens a nós destinados. Ela prontamente nos colocou um quarto à disposição [de muitos outros que lá existem] em outro prédio ao lado e tão bom como aquele em que havíamos ocupados por primeiro. A tal senhora desconhecia os cômodos no prédio ao lado? É cobra gente. Preço do refúgio: 12 euros.

  Boa noite.    

Capela – Santuário

QUINTA ETAPA – CAMALDOLI a BIFORCO

Sepe e Giordano

                             

monte dos ventos uivantes

 QUINTA ETAPA – CAMALDOLI a BIFORCO, 18 km

 Ao amanhecer do quarto do refúgio, de fundos para o parque florestal da Itália, olhando pela janela avistei um veado adulto pastando tranquilamente demonstrando intimidade e segurança no local. Logo em seguida também vi o filhotinho saboreando as gramíneas novas e suculentas da primavera. Quão bela a natureza, animais que dificilmente encontramos aqui, como o veado pardo por exemplo, quase extintos no sul do Brasil  e que tenho visto apenas em fotos noturnas do inventário ambiental das florestas da TANAGRO, empresa, aliás, exemplar no trato, respeito e defesa do meio ambiente.

 Empanturrados pelo excelente café, presenteados com frutas, abraços e abraços no e do Giordano, iniciamos nossa missão franciscana ao encontro de dois paulistas e quatro mulheres do mesmo estado que Giordano informou estar um dia na nossa frente. Antes de pegarmos a estrada, acompanhados de nossa amiga e companheira chuva, Giordano assegurou pouso no próximo refúgio. Também assegurei a Giordano que volto um dia para ser hospitaleiro na pequena Camaldoli.

 O percurso inicia numa altitude de 800 metros em meio ao parque florestal italiano e logo estaremos em 1.200 metros, significando subida e mais subida combinada com descidas difíceis e dolorosas, bem ao gosto franciscano, o que implica numa caminhada de sete horas e meia. Em Badia Prataglia há cafés e comércio assim como em Rimbocchi encontramos telefone público. Aconselha-se a comprar um cartão internacional ao custo de 10 euros, no máximo, para as ligações ao Brasil. Nas proximidades de Poggio della Forca e Rimbocchi encontramos uma vara com cerca de 12 Javalis, entre adultos e filhotes, na pastagem. Com nossa aproximação os animais se embrenharam no mato.

 Biforco é pequena não possuindo mais do que trinta casas. O refúgio é muito bom tendo cozinha completa, camas e roupas limpas, cobertores, sabonete e ducha quente. Compramos no mercado ao lado do prédio vinho, pasta, pomodoro e pão, além dos alimentos para o dia seguinte. Preparei o delicioso jantar regado ao excelente vinho regional. A noite estava muito fria.

 Destaca-se importante instrumento que deve ser conseguido na floresta logo no início da caminhada. Um cajado. É que em razão dos montes apeninos quase todo o percurso do caminho de Assis dá-se pelas montanhas através de longas subidas o que nos obriga nos pontos mais difíceis de auxílio exterior para ajudar no prosseguimento da jornada, pois em determinados pontos é necessário flexibilizar o tronco, trazendo a frente o peso da mochila, permitindo com o auxílio do cajado deslocamento mais confortável. Some-se a isso as pedras, troncos e galhos caídos nas trilhas que podem provocar uma queda comprometendo a caminhada. O Eduardo com sua costumeira rebeldia não achava necessário o bastão, que eu consegui para ele, tendo mais tarde que dar o braço a torcer ante as adversidades, tarefa não muito fácil de fazê-lo compreender de minhas ações em defesa da segurança dele próprio.

 Tendo em vista que estou há quatorze dias longe de casa a saudade começa apertar o coração. As lembranças dos filhos humanos e de pelo (são cinco, dois cachorros e três gatos), da mulher companheira, do trabalho, dos amigos da cabana, das comilanças organizadas pelo seu Paulinho Soares, nosso velho e querido mestre cuca, incansável em saciar a fome dos comilões que na maioria das vezes não confirmam a presença [meu caso] mas que ele sempre dá um jeito e a boa comida nunca falta. Amanhã dia 28 de abril à noite em nossa cabana por certo ele fará um saboroso churrasco, ou pernil de suíno assado no forno com massa, ou matambre recheado assado no forno, talvez uma feijoada se estiver frio. Que falta me faz o chimarrão (mate quente com erva mate) e o churrasco do seu Paulinho. A carne aqui é coisa muito rara e os pratos normalmente massas ou pizza na nossa nutrição o que já é bom demais em se tratando de epopéia franciscana. Só de lembrar, da quinta-feira, fico com água na boca.

 Logo após o meu retorno ao Brasil seu Paulinho que estava em plena saúde ficou doente e enquanto preparo este material veio a falecer. Fica a minha homenagem a essa pessoa que foi um verdadeiro pai para os 17 da cabana dos amigos e com certeza jamais o esqueceremos. Perdemos o “chef” das quintas e dos sábados mas não perdemos o legado da convivência, bondade, presteza e simpatia. Lembro das vezes que me aproximava do fogão buscando experimentar os pratos aqui e acolá recebendo dele como protesto “sai daqui mão de graxa”. Os tempos já não mais serão os mesmos. As perdas e são muitas não se substituem. Que São Francisco o abençoe e lhe trilhe uma caminho de luz pois um dia por certo nos encontraremos meu velho amigo. As saudades certamente serão eternas.

 

geladeira natural

 

Nuvem de tags

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